Assistência espiritual e religiosa nos hospitais é bálsamo em tempos de pandemia

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O diretor do Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa do Centro Hospitalar Universitário de São João (CHUSJ), no Porto, considerou hoje que este trabalho é um bálsamo para doentes em tempos de pandemia de covid-19.

“A assistência espiritual e religiosa nos hospitais é um bálsamo em tempos de pandemia para os doentes e também para todas as pessoas que habitam o espaço do hospital, os profissionais de saúde, as famílias, os colaboradores, os voluntários, e as pessoas que vão às consultas externas ou fazer exames”, afirmou à agência Lusa o padre Paulo Teixeira, de 49 anos e há cinco capelão no CHUSJ.

No caso do CHUSJ, esta equipa tem sete funcionários. Acrescem 150 colaboradores, incluindo 11 ministros não católicos, que foram reduzidos a 12 com presença diária.

Com a pandemia, a missa também deixou de ser celebrada publicamente, assim como a distribuição da comunhão aos doentes.

“Antes da pandemia, íamos de cama em cama informar os doentes dos seus direitos de assistência espiritual e religiosa, e desde março não podemos fazer isso”, declarou o padre católico Paulo Teixeira, reconhecendo que a ação “fica amputada ou diminuída, mas o trabalho continua a ser feito”.

“Desde a primeira hora que vamos a todas as enfermarias, covid e não covid, a não ser que, por questões de segurança pessoal, não estejam reunidas as condições”, explicou.

No caso dos doentes com covid-19 ventilados ou em coma, os pedidos que chegam à equipa da assistência espiritual e religiosa partem das famílias e dos profissionais de saúde, com o sacerdote a destacar a sensibilidade destes últimos, “tenham fé ou não, que procuram atender à saúde total do doente”.

“A saúde física, mental, social e espiritual são todas importantes”, salientou.

No caso de outros doentes com covid-19, o sacerdote referiu que “a experiência da doença expõe a vulnerabilidade e faz ver a necessidade do outro”, pelo que “a proximidade com os outros é um bálsamo”.

A pandemia tornou também visíveis sentimentos de isolamento, solidão e até de abandono por parte dos doentes.

“Dei-me conta da solidão em que estas pessoas estão, até porque não podem receber visitas dos familiares, e algumas referem-no”, declarou o padre Fernando Sampaio, capelão no Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte (CHULN, admitindo que “muita coisa mudou” na assistência espiritual e religiosa, “desde logo a necessidade de proteção e de cuidado no acesso” aos doentes.

O sacerdote apontou, ainda, “um diálogo muito maior com os profissionais de saúde, nomeadamente os enfermeiros”, assumindo ter uma “ajuda muito grande” daqueles, que o acolhem “com muita simpatia”.

“Aproveitando o facto de estar dentro do ‘covidário’, sugerem visitar o doente A, B ou C”, exemplificou Fernando Sampaio, destacando, contudo, que a “parafernália” de equipamento de proteção individual “inibe o sentimento de proximidade”.

“A pandemia mexeu com esta proximidade”, garantiu o também coordenador nacional dos capelães hospitalares e coordenador do Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa no CHULN, que conta com quatro funcionários, dos quais três são capelães, além de um grupo de voluntários.

Capelão hospitalar há 34 anos, o padre. Fernando Sampaio, de 63 anos, disse que “alguns doentes pedem para rezar, outros pedem os sacramentos, pedem que rezem, por vezes querem também a mão”.

“Eu não tenho medo de me aproximar das pessoas, mas tenho de ter cuidado comigo e com os outros para não transportar a infeção”, referiu.

O padre Fernando Pascoal, de 58 anos, coordenador do Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) desde 2019, acrescentou que com “o facto de não haver visitas as pessoas sentem-se muito isoladas, algumas mesmo em solidão, outras, de mais idade sentem-se abandonadas”.

“Muitas vezes querem alguém com quem possam ter um pouco de diálogo, pedem que rezemos por eles, com eles”, contou o sacerdote.

No CHUC, esta equipa é de 15 pessoas (Igreja Católica, outras igrejas cristãs e muçulmano), incluindo quatro funcionários. Tem ainda 10 colaboradores.

“Temos uma relação de colaboração muito próxima com o serviço de assistência social do CHUC, que nos sinaliza doentes e o nosso serviço faz o mesmo”, esclareceu, notando que “o doente é um todo e toda a sua realidade, física, espiritual, social e familiar, tem de ser tida em conta para ser cuidada”, disse.

O coordenador explicou que quando a pandemia eclodiu, em março do ano passado, obrigou a que a equipa também ficasse “muito confinada” nos dois meses seguintes, sem “ter muito contacto com os doentes”.

“O nosso trabalho era mais de sermos intermediários entre familiares e enfermeiros, até porque as visitas tinham sido suspensas”, declarou, referindo que desde junho o trabalho de assistência espiritual e religiosa foi retomado, mas agora está “bastante limitado pelo agravamento da pandemia”.

“Temos todo o cuidado, mas vamos a todas as enfermarias, incluindo covid-19. Nestas vamos apenas quando é pedido o sacramento da unção dos doentes”, referiu.

O pastor João Pereira, da Igreja Presbiteriana, assistente espiritual no CHUC há quatro anos, referiu-se à atualidade como um “tempo novo”, em que “mudou tudo aquilo que era o habitual nas relações humanas”.

João Pereira, de 60 anos, realçou o trabalho em equipa no CHUC, notando ser “muito comum o assistente católico dizer ‘estou com um doente da tua igreja’ e até passar o telefone ao pastor”.

“Esta colaboração é boa para o doente, é boa entre as religiões e é boa para as famílias, que veem que há uma equipa no hospital de verdadeiro apoio espiritual mais do que apoio confessional”, assinalou, considerando que “esta pandemia veio revelar o quanto isto ultrapassa as igrejas, as confissões”.

fonte: noticias de coimbra