Motivos políticos, sociais ou financeiros? O que explica a insistência do PCP em realizar a Festa do Avante

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Para o PCP, a Festa do Avante é o “ponto de encontro com a vivência coletiva dos trabalhadores e do povo, da sua cultura, dos seus problemas e aspirações”. Mas não terá também a Festa do Avante motivos financeiros? Segundo os comunistas, “só quem não conhece” pode pensar isso. Mas será que é mesmo assim?

A Festa do Avante começa esta sexta-feira, dia 4, na Quinta da Atalaia, no concelho do Seixal. Mas o que explica que o Partido Comunista (PCP) tenha insistido na realização da sua habitual rentrée política quando os outros partidos anunciaram o seu cancelamento? Terão sido motivos financeiros ou meramente políticos? Será que, para o PCP, o dinheiro é mais importante que a saúde dos portugueses?

Segundo os comunistas, a Festa do Avante é “uma grande afirmação do estímulo à atividade, à cultura, à arte, ao desporto, ao convívio, ao lazer, à intervenção política, à solidariedade, à fruição da vida, essenciais à saúde e ao bem estar da população”. O evento realiza-se desde 1976 e só não se realizou uma vez, em 1987, por não ter conseguido assegurar o espaço para a festa devido ao que qualificou como “uma decisão reacionária do governo Cavaco/PSD”.

O PCP considera que as críticas à realização da Festa do Avante, que subiram de tom este ano devido à Covid-19, são “apenas uma expressão de um objetivo de sempre das forças reacionárias: o de pôr em causa o exercício de direitos políticos e mais em particular a atividade do PCP e sindical”.

“Os ataques à festa vêm desde a edição que se realizou em 1976, então com recurso à bomba. Manteve-se durante anos nas tentativas várias de a impedir por via dos obstáculos à disponibilização de terreno para a realizar. E prosseguiu até aos dias de hoje com as linhas de desinformação e calúnia que foram lançadas sobre aspetos da sua realização”, explica o PCP, a propósito da realização da Festa do Avante.

É a luta contra as forças reacionárias – que personaliza em partidos como o PSD, CDS-PP, Chega, Iniciativa Liberal e, até, no PS – bem como a defesa dos direitos dos trabalhadores que, de acordo com o PCP, motiva anualmente a realização da Festa do Avante, enquanto “ponto de encontro com a vivência coletiva dos trabalhadores e do povo, da sua cultura, dos seus problemas e aspirações”.

“A Festa do Avante é, inegavelmente, a Festa de Abril e do povo, realizada a pensar no reforço da sua luta e dos seus direitos, como o testemunham as suas 43 edições. Neste momento da vida nacional é particularmente importante projetar a vida, a luta e resistência do povo português”, indica o partido liderado por Jerónimo de Sousa, sublinhando que “realizar a Festa é afirmar e manter abertas as portas que Abril abriu”.

Este ano, é esperado também que a Festa do Avante servia de palco para marcar uma posição, em termos políticos, para as eleições que se avizinham: as regionais dos Açores (marcadas para 25 de outubro) e as presidenciais e autárquicas do próximo ano (ainda sem data marcada). As eleições autárquicas serão cruciais para o PCP, tendo em conta que, em 2017, perdeu 10 das 34 câmaras municipais que tinha, nove delas para o PS.

Mas não terá também a Festa do Avante motivos financeiros? Segundo os comunistas, “só quem não conhece a Festa e o PCP pode avaliar a sua realização e a conduta do PCP em função de objetivos financeiros”. No entanto, as contas apresentadas pelo PCP à Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) mostram que a Festa do Avante – que entra no separador ‘angariação de fundos’ – é a segunda maior fonte de receita, atrás apenas das quotas.

No último relatório divulgado pelo PCP à ECFP, relativo às contas de 2019, pode ver-se que o PCP conseguiu 2.909.240,13 euros de angariações de fundos. Contudo, a Festa do Avante não representa a totalidade desta verba. Num parecer referente às contas de 2017, a ECFP apontava que a principal “iniciativa de angariação de fundos” do PCP, a Festa do Avante, representa “cerca de 91,2% da totalidade desta rubrica”.

Contas feitas, a Festa do Avante terá alegadamente originado uma receita de mais de 2 milhões de euros, mas o PCP nega esse número. Os comunistas indicam que, em 2019, a Festa do Avante terá gerado um prejuízo de 564 mil euros, tendo em conta o “investimento no terreno para melhoria do acolhimento ao visitante”.

mesmo relatório da ECFP, referente a 2017, aponta, no entanto, “deficiências” na contabilidade da Festa do Avante. “No que concerne a esta iniciativa de angariação de fundos [a Festa do Avante] – a principal, do PCP, representando cerca de 91,2% da totalidade desta rubrica –, foram identificadas várias situações de deficiências no suporte documental no que respeita ao detalhe dos rendimentos obtidos”, indica a ECFP.

fonte:sapo