Restaurantes. Faturam metade, mas há quem mantenha a abertura de novos espaços. Mas também se pede a descida do IVA e o adiamento da eliminação do plástico

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A viver uma crise sem precedentes, o setor da restauração não deixou de procurar alternativas e em alguns casos houve empresas a manterem planos de abertura de novas unidades. Por seu lado, a associação que representa os restaurantes insiste na redução do IVA e pede que se adie a eliminação do plástico nos pratos, talheres ou embalagens de uso único previsto para acontecer já a 1 de setembro.

Horários mais favoráveis, redução do IVA e o adiamento da medida que prevê a eliminação do plástico em utensílios de uso único usados na restauração e que deverá entrar em vigor já dia 1 de setembro. Em síntese, estas são as medidas que a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) considera terem mais impacto numa situação do setor que classifica como “avassaladora”.

Comecemos pelos horários.

Desde 1 de agosto, que os restaurantes de todo o país podem estar abertos até à uma da manhã, mas não podem receber novos clientes a partir da meia-noite. Este horário representa mais uma hora de abertura porque, até então, os estabelecimentos tinham de encerrar à meia-noite e a fechar portas a novos clientes às 23 horas. Tudo isto mantendo a ocupação dos espaços a metade.

No que respeita à Área Metropolitana de Lisboa (AML), que teve limitações adicionais devido a vários surtos na região, depois do Conselho de Ministros de quinta-feira, 13 de agosto, os horários de funcionamento dos estabelecimentos comerciais passam a poder ser alterados por decisão dos presidentes dos municípios, sendo necessário um parecer das forças de segurança e da autoridade local de saúde.

Para a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), o encerramento dos estabelecimentos à uma da manhã é uma “imposição que não faz sentido quando aplicada aos estabelecimentos de take away/domicílio/drive in, cujo serviço, aliás, se quer promover.” A AHRESP intercedeu já junto da tutela para clarificar a questão. Ao SAPO24, Ana Jacinto, secretária geral da associação diz que “o alargamento do horário de abertura é uma medida positiva”, mas o que importa reter é que “continua a não haver clientes suficientes, quer pelo sentimento de insegurança a que infelizmente os restaurantes foram associados, quer pelo teletrabalho que ainda perdura, e também pela ausência de turistas internacionais.”

A situação da região de Lisboa tem sido uma das mais difíceis de gerir, mas e quanto ao resto do país? Ana Jacinto diz que, segundo o que apuraram no inquérito mais recente, o “cenário é dramático de forma homogénea, em todo o território nacional”. Há falta de clientes em todo o país. Mais de um quarto dos estabelecimentos da região Norte (27%) referem não ter tido qualquer faturação no mês de julho. No Algarve, 83% dos estabelecimentos têm quebras de faturação superiores a 40%. “O cenário é avassalador em todo o território nacional”, conclui.

Nuno Fernandes, responsável de marketing e parcerias da Zomato, uma plataforma de descoberta de restaurantes, considera que ter uma “janela horária menos limitativa é muito positivo para o restaurante e para o cliente”.

A Zomato está disponível em Lisboa, no Porto, Braga, Santarém e na zona costeira do Algarve, preparando-se para cobrir toda esta última região. “Listamos todos os locais onde se pode comer ou beber. Desde o café da esquina, ao restaurante de autor até ao restaurante de hotel”, explica o responsável.

Portugal é apenas um dos 24 países em que a Zomato opera. Os 23 mil restaurantes aderentes “não pagam nada para fazerem parte da plataforma”. Com a pandemia a obrigar a novas rotinas, a Zomato manteve o contacto permanente com os restaurantes, agora sobretudo via e-mail e por telefone, para atualizar menus, fotos dos espaços e perceber se ainda estão abertos.

Segundo o relatório feito pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) sobre o setor no mês de junho, o índice de volume de negócios diminuiu 23,2% nesse mês, em comparação com o mesmo mês no ano passado, mas registou uma melhoria de 7,8 pontos percentuais em relação a maio deste ano em que a quebra era de 31,0%.

Sobre estava evolução, a secretária geral da AHRESP diz que há que “comparar o que é comparável”: “É evidente que, se compararmos os dados de junho com os de maio, existe uma evolução positiva, pois até 18 de maio o setor esteve encerrado por decreto, com praticamente total ausência de faturação. Se temos 0€ de vendas num mês, é óbvio que com a reabertura no mês seguinte se registe um aumento em cadeia”.

Em junho, “a esmagadora maioria das nossas empresas continuavam com quebras homólogas acima dos 40%, e as vendas não são suficientes para fazer face às despesas (e muito menos para gerar lucro), resultando num saldo negativo.”

Neste sentido, a AHRESP apela à urgente disponibilização de medidas de incentivo aos consumidores, acrescentando que outros países têm seguido esta estratégia, “com excelentes resultados”: “Temos o exemplo do Reino Unido, em que, a par da redução do IVA na restauração e alojamento, o Governo está ainda a oferecer 50% de desconto em refeições em cafés e restaurantes, de segunda a quarta-feira, durante o mês de agosto. Na primeira semana, foram reivindicadas cerca de 10,5 milhões de refeições ao abrigo desta campanha”, diz Ana Jacinto. A associação conclui que “os restaurantes portugueses beneficiariam muito com a implementação de uma medida semelhante”.

A análise que a secretária geral da AHRESP faz é dura: “O setor da restauração em Portugal continua a agravar a sua situação dia após dia, com a grande maioria dos estabelecimentos a registarem quebras de faturação verdadeiramente preocupantes. A retoma não está a corresponder às expetativas que as empresas ambicionavam, muito longe disso, está a ser muito lenta, e em alguns casos praticamente não existe retoma”.

No que toca a turismo internacional, a associação diz que é “quase inexistente” e que agosto, “o mês aguardado com maior expectativa pelos estabelecimentos de restauração, não trouxe um aumento na procura”.

“O que se esperava ser uma crise passageira, está a ter efeitos muito duradouros nas nossas empresas”

Num inquérito às empresas da restauração e bebidas, entre 31 de julho e 3 de agosto deste ano, a AHRESP conclui que, entre as 1.377 respostas válidas, três quartos das empresas registaram uma quebra de faturação acima dos 40%, ou seja, quase metade. Destas, 11% têm quebras de faturação superiores a 90%. Associado a isto, 31% das empresas estimam que no mês de agosto tenham uma quebra de faturação acima de 75%, comparado com agosto de 2019.

Quase metade das empresas, mais de 43% das empresas, ponderam avançar para insolvência, “uma percentagem que tem vindo a aumentar nos últimos 3 meses”, diz Ana Jacinto. “O que se esperava ser uma crise passageira, está a ter efeitos muito duradouros nas nossas empresas”.

Outras conclusões dizem que 16% das empresas não conseguiram pagar salários em julho e que mais de 30% não vai conseguir manter os postos de trabalho até ao final do ano. E há empresas que recorrem a apoios para manter esses postos de trabalho. De acordo com o inquérito, 44% das empresas têm intenção de os usar (52% destes vai optar pelo Apoio à Retoma Progressiva e 48% pelo Incentivo Extraordinário à Normalização da Atividade).

Ana Jacinto explica que todo este cenário faz com que os empresários se sintam “desesperados com a falta de receitas e com os poucos apoios disponíveis, que não lhes permitem fazer face ao aumento de custos que têm sentido a partir de julho, decorrentes das moratórias de rendas e prorrogações de impostos que vigoraram durante o estado de emergência”.

Nuno Fernandes traz dados mais positivos: “Em termos de listagens, desde 18 de maio contamos cerca de 400 novos espaços, o que são muitos restaurantes e cafés. E temos muitos restaurantes a abrir com novos conceitos, em setembro. Com a adaptação dentro da diversidade de take away, entrega e outros métodos, vejo claramente uma esperança para os próximos meses, mesmo sabendo que serão meses duros”.

Frederico Seixas, um dos sócios e diretor de marketing do Grupo Non Basta, traz um exemplo. Em abril iriam abrir um quarto espaço de restauração, mas ainda não o fizeram. Contam abrir um restaurante em Lisboa por volta de outubro, em que exploram um conceito “diferente dos Pasta Non Basta e do Memoria” – restaurantes que o grupo detém.

É preciso confiança por parte do cliente e para isso “é importante os espaços apostarem na segurança do cliente e, mais do que nunca, na presença digital para que os clientes não se esqueçam dos seus espaços favoritos”. E Nuno Fernandes conclui: “Os que sobreviverem nos próximos meses terão, provavelmente, uma projeção mais favorável no próximo ano”.

Já a AHRESP diz que “a abertura de novos estabelecimentos será praticamente inexistente, a não ser todos aqueles que já tinham os investimentos em curso, e que a abertura coincidiu nesta fase dramática”.

Reduzir o IVA e adiar a eliminação do plástico

Uma das medidas apresentadas ao Governo pela Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) para estimular a recuperação da restauração é que todo o serviço de alimentação e bebidas passe a estar sujeito à taxa reduzida (6% no continente, 4% nos Açores e 5% na Madeira), pelo período mínimo de um ano.

Atualmente é aplicada a taxa intermédia (13% no continente, 9% nos Açores e 12% na Madeira) para todo o serviço de alimentação, serviço de cafetaria e águas lisas ou com gás natural (sem sabores), e a taxa máxima (23% no continente, 18% nos Açores e 22% na Madeira) para todas as restantes bebidas (com ou sem álcool).

Uma taxa reduzida de IVA “é da maior relevância para o reforço da liquidez das empresas”, defende a secretária-geral da associação. Em comunicado, a AHRESP defende que essa redução “constituirá um importante estímulo à recuperação da atividade, com potencial para ajudar na sobrevivência de milhares de empresas e postos de trabalho”.

Acrescenta ainda que países como a Alemanha, o Reino Unido, a Bélgica, a Áustria, o Chipre, a Bulgária, entre outros, têm optado pela redução do IVA.

fonte:sapo